textos críticos

Talitha Rossi se ocupa do fluxo da experiência no tempo. Seus trabalhos iniciais apresentavam uma personagem longilínea e futurista grafitada nos muros da cidade, expostas à ação das intempéries e dos passantes. Logo passou a encarnar pessoalmente variações de sua personagem em fotos, onde, de diferentes maneiras, estabelecia conexões possíveis entre o ciberespaço e a natureza. Mas outras tradições, com sabores mais pretéritos, também povoam o mundo de Talitha: refinados bordados e tecidos nos lembram costumes ancestrais, assumindo forma em esculturas com referências orgânicas. Com as esculturas extinção #2 e extinção #3, que somam bordados a ossos bovinos, suas pesquisas se aproximam de antigos rituais, ampliando o espectro temporal de sua relação – já tão arquetípica – com a natureza e a vida em sociedade.

 

Brígida Baltar, Ana Miguel e Clarissa Diniz

Talitha Rossi, numa coletiva de si mesma, apresenta obras que, acima de tudo, celebram o amor. Amor à flor da pele, que transborda, que rasga o corpo expondo órgãos e fluidos numa corrente contínua. A intensidade é a da vida, mas a delicadeza é a marca presente em cada detalhe. Se o vermelho do sangue escorre é para lavar, como num rito de passagem, mágoas e desafetos, e assim despertar o amor. Cada objeto escolhido trás uma memória, muitas vezes de solidão, mas sempre com a coragem da busca. Talitha expõe o mais íntimo do ser. Vai fundo, até os ossos, espreme as entranhas, troca de pele e empresta o próprio corpo para falar de amor, só do amor.

 

Isabel Portella

A PLASTICIDADE DO FEMININO

Libertar-se, para a mulher, não significa aceitar a mesma vida do homem, pois isso não é factível, mas expressar seu sentido da existência. (Manifesto de revolta feminina- 1970)

Talvez a gente devesse retornar um pouco as nossas raízes pagãs, em que o feminino, em sua construção estética, é compreendido e desenhado de outras formas. (Iasmim Martins)

 

Foi enriquecedora a partilha com Talitha Rossi sobre o feminino (filosófica, psicanalítica e artística). A artista tem um trabalho lindo, profundo, que unifica força, visceralidade e delicadeza. Características facilmente perceptíveis na sua personalidade, que se entrelaçam com seu refinamento espiritual e artístico. Sim, “está tudo dentro”, “ainda há delicadeza”, frases que guiam o trabalho da artista, menina e mulher, Talitha Rossi. A partir da sua perspectiva e condição feminina, ultrapassa aquilo que parecia ter sido destinado às mulheres, isto é, a submissão. “Insubmissa de si mesma”, ela cria algo sutil sobre a sua dor de mulher, sobre o feminino, sobre o espiritual. Inspirada, inclusive, pelas Yabás e também nas suas vivências íntimas, pessoais, sem deixar de considerar o mundo externo em conexão com o mundo interno, reivindica voz para as mulheres artistas, para além do isolamento do ateliê. Faz performances, com seu corpo no mundo e nos espaço-tempo, que se dá no instante de contato com quem passa por ela na rua. Sempre preocupada com as questões que perpassam o tecido social, não deixa de pensar sua obra criticamente, de fundamentar suas criações. A obra não se faz arbitrariamente.

As obras têm uma profunda conexão com o corpo, o maternal, o expansivo do feminino. Lembrando que feminino não é característica ligada ao gênero, mas que perpassa todos nós (mulheres, homens, não-binários etc.). Sim, existem também interrogações e expressões sobre o feminino na mulher e sobre a mulher, qual é a plasticidade desse feminino, como ele se desloca para além da construção social aprisionadora. A Artista deixa transparecer o caráter ativo das mulheres, seja através da sedução, da possibilidade de produção da vida, das vivências amorosas ou da capacidade de se recompor, reconstruir diante dos infortúnios da existência e da experiência de cada mulher, de cada ser. Para concluir, seu trabalho é importante no campo da arte contemporânea, tendo enorme relevância estética/reflexiva para repensar nosso ser no mundo.

A partir de alguma de suas obras, podemos refletir não somente sobre a força do feminino e sua conexão com o mistério, com o sagrado, com a vida e a força maternal, mas pensar a mulher real, na precariedade que sempre rondou a vida das mulheres, na condenação que sempre existiu com relação ao feminino, ainda que este não seja um atributo ou elemento constitutivo apenas das mulheres (gênero). Por outro lado, a artista nos convoca a sentir a força disruptiva do feminino, através da beleza e da celebração dionisíaca da vida.

 

Iasmim Martins (Professora/doutoranda de Filosofia- PUC RJ e Psicanalista)

CAPS LOCK. todo corpo é digital. digital é identidade. chão arenoso. marcado pelo vento. pelo ar. wifi. o toque na terra. plugado. todo corpo é irreal. virtuose de estímulos. conectado. todo corpo é ponte. ponto de fuga. de um ponto a outro da rede. da roda. processamento binário. estrelas em órbita da solidão. todo corpo grita. barulho de ouvir a terra. escutar o ruído do centro. do eco do centro do oco. nossos centros. fendas. todo ruído. ressonância e perigo. o magnetismo que invade as margens, de rios e pele. plug and play. o foco é na célula. na celulose se compõe o sonho. e todo corpo é sonho. de nuvem e fúria. verde veludo. vermelho ver tudo. por dentro, impressões que ficam na carne. natureza pixelada. nítida nas memórias.

"a mãe natureza e a filha da internet”. voa. o corpo sofre sem face. delira. troncos de selfie na busca pra dentro. das pernas. dos buracos do mundo. olhar invertido da foto que brilha. luz e belezas. voyeur do voyeur do voyeur. focos dos olhos em profundidades. absurdas linhas do corpo todo. ouvindo suas raízes mais antigas. na rede translúcida. cabelos. e folhas. e galhos. e paus e paus de selfie. em grades a natureza da mulher. reduzida perto do concreto e ferro. grandiosa. pólvora e ferrugem escondendo a terra. cidade. mãe. o barro. água e sal. queimando. fuligem e cimento. se muito, sumindo. no olho do mundo. lama e alma em conexão. nexo e sexo conexos. a profunda escuta da terra. unplugged. como escolha de sumir no seu tamanho. de se assumir do seu tamanho. de se escolher névoa. bruma, brisa. santa que se evapora e retorna ao ventre terra. vento de terminar. CAPS LOCK. ecoa silêncios. corpos perdidos.

sinhá sobre "CAPS LOCK” a mãe natureza e a filha da internet de talitha rossi, ainda outono de 2016.

 

Evelin Sin