Ritual com cabelo e nanquim

Prefiro chamar minhas pinturas de rituais. Para mim, são pelos ritos de encantaria e sensação que nascem as pinturas ( e os outros trabalhos tb). Não me preocupo com técnica ou material, e sim com a ação. Gosto de fazer meus rituais de pintura com cabelo e nanquim. Ora com meu cabelo, ora com os de bonecas, ora com os das perucas que coleciono.



Tem uma passagem de Deleuze no seu livro Francis Bacon - Lógica da sensação (p. 52) que li durante minha pós-graduação em Arte e filosofia que diz:

" É como se a mão tomasse independência e passasse a servir outras forças, traçando marcas que não dependem mais de nossa vontade nem de nossa visão. Essas marcas manuais quase cegas testemunham assim a intrusão de um outro mundo no mundo visual da figuração. Elas retiram, de um lado, o quadro da organização óptica que já reinava nele e que o tornava figurativo de antemão. A mão do pintor é interposta, para socorrer sua própria dependência e para quebrar a organização óptica soberana: não vemos mais nada, como em uma catástrofe, um caos."


Essa abertura de domínios sensíveis me interessa. É no encontro dos traços, das manchas, das linhas e das zonas com o ritmo que nós artistas encontramos o caos, um esforço espiritual intenso, que pra muitos de nós, sentimos como uma saudação espiritual.